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Linha d'água

HISTÓRIA DOS SERVIÇOS DAS ÁGUAS

Na Idade Média o abastecimento de água não era um serviço municipal, mas sim uma necessidade comum a toda a comunidade que era respondida através do abastecimento próprio nas fontes públicas. O papel do município era a facilitação deste ato através da construção das fontes públicas e dos devidos sistemas de condução da água que alimentavam com água de nascente a bica. O município era responsável pela contratação dos mestres pedreiros para a construção dos aquedutos e das fontes e arrematação de obras de manutenção posteriores. A profissão de mestre pedreiro era especializada no projeto e na construção de estruturas arquitetónicas, nas quais se inserem as fontes. E haviam os mestres pedreiros especializados neste tipo de construção que por envolver uma componente técnica da hidráulica, requeriam mestres com experiência. São várias as referências a “mestre pedreiro dos aquedutos”, “mestre dos aquedutos” e “mestre das obras das águas” na documentação de época referente às arrematações, que se aliavam ao “mestre ferreiro”, ao “mestre aparelhador” e ao “mestre rebocador” para estas obras. 

Só na Idade Moderna é que as responsabilidades se estendem a outras preocupações que surgem motivadas pelo crescimento da cidade que trouxe a necessidade de mais água, como a construção de cisternas subterrâneas para armazenamento de água, grandes redes de distribuição de água pela cidade e a regulação da limpeza das fontes públicas. Em 1613 foi criado o acórdão de 31 de agosto um código resumido de prescrições sanitárias que protegia os riachos. Em 1640 quem fosse apanhado a cometer tais atos, era multado pelos “meirinhos da saúde”. Mais tarde, em 1732, foram nomeados os “olheiros da limpeza das fontes e tanques da cidade”, um cargo municipal que zelaria pela limpeza das fontes e tanques. A 12 de fevereiro de 1787 a Câmara reuniu uma série de acórdãos, que estiveram em uso até às últimas décadas do século XIX, apresentada como um código, intitulado “Dos entulhos e limpezas da cidade” controlados no espaço público pelos almotacés. Esta nova atenção à qualidade da água da cidade materializou-se na construção da primeira rede de distribuição de água da cidade, com o projeto de construção do que seria o maior manancial do Porto, o Manancial de Paranhos, mais conhecido como Manancial da Arca d'Água. Por força da comunidade, que se ofereceu para ajudar a cobrir os custos de tal construção, o Porto foi dotado de uma rede de galerias e aquedutos subterrâneos que abasteciam fontes públicas e particulares com água abundante e de boa qualidade.

No século XIX, impulsionada pelos avanços da indústria e da ciência, agravam-se as preocupações com a salubridade motivadas pelo aumento da demografia e tomou-se a decisão de dotar a cidade do Porto do 1º sistema insdustrial de abastecimento de água, movido a vapor e construído e concessionado por uma empresa parisiense. A higiene e a saúde foram asseguradas também pela 1ª rede de saneamento, construída nos inícios do século seguinte por uma empresa londrina. Apesar do longo contrato de concessão, a empresa francesa, foi, ao longo dos anos, demonstrando uma pobre gestão do sistema e má qualidade no serviço de distribuição da água na cidade. Por essa razão, foi tomada a decisão de resgate da concessão com a criação dos SMAS a 1 de abril de 1927, os Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento do Porto, que passaram a ser responsáveis, até hoje, pelos serviços da água e do saneamento.

O século XX foi o período de ampliação da rede, com destaque para as década de 1920 até à de 1940. A principal obra foi a construção dos reservatórios e da Central de Nova Sintra entre 1928 e 1929, para aumentar a oferta de água que a empresa concessionária não conseguiu cumprir. A água elevada de Gondomar passou a chegar a Nova Sintra, que ainda possui atualmente os maiores reservatórios da cidade, com capacidade de 45.000 m³. Estes reservatórios deram mais água aos portuenses e a garantia de reservas para alturas críticas. À água do Rio Sousa juntou-se a água do Rio Douro com a construção de poços de captação em Zebreiros. As captações foram desativadas após quase 100 anos, com a construção da Barragem de Crestuma-Lever na década de 1980. Entre as décadas de 1940 e 1970, foram construídos diversos reservatórios, nomeadamente os do Bonfim, Carvalhido, Congregados, Amial e Fonte da Moura. Ao longo do século XX, foram instalados numerosos fontanários e bebedouros em ferro fundido na cidade, garantindo acesso à água potável para toda a comunidade, como parte de uma ação de democratização da água, face ao gradual desuso das antigas fontes públicas motivado pela insalubridade das águas de nascente. Esta iniciativa foi revitalizada nos últimos anos pela Águas e Energia do Porto.

A partir do século XXI, os serviços focam-se na sustentabilidade ambiental e em 2006 o sistema de abastecimento de água foi redesenhado no âmbito do projeto “Porto Gravítico”, de modo a tirar proveito das condições morfológicas da cidade do Porto onde as suas cotas altas permitem pressorizar a água por ação da gravidade. Este projeto focou-se na eficiência hídrica e na redução do consumo energético, resultando numa diminuição de 97,3% nos gastos energéticos associados às estações elevatórias. Constroem-se também as ETAR's do Freixo e de Sobreiras. Atualmente a empresa municipal gere todo o ciclo urbano da água do Porto.