Linha d'água
AGOA VAI!
«Vai por água abaixo» num percurso pela história do saneamento da cidade do Porto!
SABIAS QUE?
Sabias que a expressão «Agoa vai!» era gritada para avisar as pessoas que iam a passar na rua que água residual ia ser lançada da janela da habitação?
Na Idade Média não existia rede de esgotos, apenas canalização para as águas pluviais. Por isso, as águas de usos domésticos eram despejadas na rua pelas janelas das habitações.
Mais tarde, na época moderna, existiram as calhandreiras, mulheres que se livravam dos dejetos dos mais abastados, transportando-os no calhandro, uma espécie de canastra alta, até ao rio.
SANEAMENTO INGLÊS
Só no século XIX é que a cidade do Porto vai ter uma rede de saneamento. Em 1890 surgem as preocupações e reflexões sobre o problema que se tinha vindo a revelar, o saneamento integrado, adotado até então pela maioria das cidades. Este sistema misto é de influência romana, contudo, muito dependente das estações pluviais, do declive do terreno e de cursos de água. É designado como sistema tout a l’egout e era o mais comum nos finais do século XIX em cidades como Londres, Paris, Lisboa e no Porto. A sua dependência das águas pluviais tornava ineficaz este sistema.
Depois da publicação em 1896 do estudo sobre o saneamento da cidade de Ricardo Jorge, médico municipal e chefe da Repartição de Higiene, é publicado em 1897 em Diário do Governo a abertura do concurso para a “Execução das obras de saneamento na cidade do Porto”. Apenas a empresa inglesa Hughes & Lancaster, sediada em Westminster, apresentou à Câmara Municipal do Porto proposta. Um projeto elaborado pelos engenheiros Shone e Ault, para o “Saneamento da cidade do Porto pelo systema separado com o emprego dos expulsores de shone nas zonas baixas da cidade”. Os trabalhos iniciaram-se no dia 11 de dezembro de 1903, até meados de 1907. A área da cidade abrangida na primeira fase destas obras, a «fase inglesa», corresponde a toda a linha marginal entre a Praça da Ribeira, na freguesia de São Nicolau e Sobreiras, em Lordelo do Ouro, passando pela marginal de Miragaia e Massarelos.
Término o contrato, foi entregue as obras do saneamento a empreiteiros portugueses, a empresa Agostinho Rodrigues Monteiro, que viria a assinar contrato com a Câmara Municipal a 23 de dezembro de 1909, ficando com a responsabilidade de retomar os trabalhos deixados pela Hughes & Lancaster e efetuar as ligações domésticas que não faziam parte do contrato original de 1903. Com a mudança de regime, em 1910, as obras foram suspensas durante cerca de mais seis anos.
Um novo contrato de quatro anos com a Hughes & Lancaster foi assinado a 7 de setembro de 1916 e o programa de instalação de saneamento na cidade do Porto prosseguiu ao longo das décadas seguintes, tendo tido um novo momento de grande impulsionamento na década de 1960, permitindo alargar ainda mais o número de habitações servidas pela rede de saneamento.
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Ejetor do Ouro
A REDE
Os engenheiros ingleses propuseram a construção de uma central de produção em Sobreiras, onde vários compressores a vapor gerariam o ar comprimido que era canalizado em tubos de ferro. Quando estes entravam nos ejetores Shöne, provocavam pressão suficiente para expelir o efluente. Foram instalados oito ejetores Shöne, e adicionado mais um, depois de 1909. A Estação Central de Sobreiras gerava energia e potência para todos os ejetores instalados, com um sistema de fornecimento energético misto, composto por um compressor elétrico e dois compressores a vapor.
O sistema conduzia a totalidade do esgoto drenado para armazenamento na Central de Sobreiras, que era depois lançado na maré vazante, de modo que fosse escoado para o mar retirando-o do Rio Douro. Através de um cano mestre, para o qual os vários canos encaminhavam os despejos da cidade. Construído à altura de 1,30 metros acima do nível médio da maré baixa por toda a sua extensão. A parte da cidade que fica acima deste coletor é drenada por meio da ação da gravidade e nas zonas baixas que costeiam o rio construíram-se expulsores pneumáticos Shöne que elevavam os despejos por meio de ar comprimido, fornecido pela Central de Sobreiras. Os expulsores trabalhavam a ar comprimido, que na época era fornecido por máquinas a vapor de compressão, trabalhando a alta pressão na estação. Escolheu-se este sítio por ficar próximo do rio, reduzindo assim o custo do transporte do carvão e outros materiais.
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Central de Sobreiras, 1929. Arquivo Histórico da AEdP.
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![Casa das máquinas da Central de Sobreiras, [s.d.]. Arquivo Histórico da AEdP.](/imagens/galeria/slideshow_127_2.jpg)
Casa das máquinas da Central de Sobreiras, [s.d.]. Arquivo Histórico da AEdP.
A tipologia arquitetónica da Central de Sobreiras insere-se nas arquiteturas da água de transição do período das centrais a vapor do século XIX para o período das centrais elétricas dos inícios do século XX. Caracterizada por arquiteturas de menor escala e que se afastam do Waterworks Style de inspiração clássica e exploram as vanguardas artísticas como a Art Nouveau e a Arte Déco. Na Estação encontramos painéis azulejares Art Nouveau de padrão relevado.
A estação era constituída pela casa das máquinas, casa das caldeiras, casa para carvão, chaminé de tijolos e tanques. A casa das caldeiras continha duas caldeiras cilíndricas, de fogo interior. As caldeiras eram de tamanho e força suficientes para poderem vaporizar 400 kg de água por hora, elevando-a a uma pressão, para o serviço, de 8 atmosferas. A água era fornecida por bombas de alimentação. O depósito de carvão tinha capacidade para conter 50 toneladas, quantidade suficiente para dois meses.
Este sistema funcionou até 2001, quando é construída a atual Estação de Tratamento de Água.
A estação era constituída pela casa das máquinas, casa das caldeiras, casa para carvão, chaminé de tijolos e tanques. A casa das caldeiras continha duas caldeiras cilíndricas, de fogo interior. As caldeiras eram de tamanho e força suficientes para poderem vaporizar 400 kg de água por hora, elevando-a a uma pressão, para o serviço, de 8 atmosferas. A água era fornecida por bombas de alimentação. O depósito de carvão tinha capacidade para conter 50 toneladas, quantidade suficiente para dois meses.
Este sistema funcionou até 2001, quando é construída a atual Estação de Tratamento de Água.
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Painel de azulejo da Casa das Máquinas da Central de Sobreiras
O SISTEMA SHÖNE
O uso industrial de ar comprimido canalizado para transmissão de energia foi desenvolvido em meados do século XIX, pois ao contrário do vapor, o ar comprimido podia ser canalizado para longas distâncias sem perder pressão devido à condensação.
A Hughes & Lancaster tirou partido disso e aplicou o sistema Shöne no Porto, que tinha sido aplicado à Casa do Parlamento em Westminster – com ejetores pneumáticos, tanques automáticos e compressores de ar.
O 1º ejetor pneumático Shöne foi criado em 1870 em Inglaterra. Este ejetor foi patenteado em 1878, pelo seu criador, Isaac Shöne, e mais tarde, na década de 1890, explorado pela empresa Hughes & Lancaster, com os engenheiros John Hughes e Charles Lancaster.
CURIOSIDADES
O sistema de saneamento da cidade do Porto construído pela empresa inglesa está em funcionamento há mais de cem anos, embora com algumas alterações. Este foi o primeiro sistema a ser construído de raiz, a nível nacional, do tipo separativo, ou seja, independente da rede de águas pluviais!
No Carnaval de 1905, um ano imediatamente a seguir às primeiras obras da Hughes & Lancaster, surge o primeiro carro alegórico alusivo ao tema do saneamento. São figuras alusivas ao policiamento das várias ruas interrompidas por causa das obras e consequentes incómodos gerados no quotidiano dos portuenses.
UM SEGREDO
Em algumas ruas da cidade do Porto ainda existem tampas de saneamento com o nome da empresa inglesa, Hughes & Lancaster.