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Linha d'água

A ÁGUA DA COMPANHIA

Mergulha na História do 1º sistema de abastecimento de água ao domicílio da cidade do Porto!
 
 
SABIAS QUE?
 
O século XIX marcou a viragem de paradigma da história do abastecimento de água da cidade do Porto, tal como aconteceu nas cidades do mundo, na sequência da entrada na era industrial. O século foi marcado pelo primeiro sistema de abastecimento de água ao domicílio da cidade do Porto, construído por uma empresa francesa. 
 
AS PRIMEIRAS PROPOSTAS
 
Foi na segunda metade do século que surgiram as primeiras propostas para o seu projeto, tendo sido a primeira em 1856, apresentada por um engenheiro inglês, que propunha a captação de água do Rio Leça. Em 1864 o projeto inovador do engenheiro francês Eugène Henri Gavand consegue o reconhecimento do presidente da Câmara Municipal, mas por falta de verbas, esta, tal como as que lhe antecederam, não se efetivou. Apesar disso, o estudo de Gavand serviu de referência para os estudos posteriores, incluindo a proposta de captação da água do Rio Sousa, em Gondomar, a que se veio a executar. Em 1873 há a tentativa de criação da The Oporto Water Works Company Limited.  
 
O PROJETO
 
Em Diário do Governo, nº179 de 10 de agosto de 1880, é publicado o concurso para contrato de exploração, canalização e distribuição de água à cidade. A única candidata foi a Compagnie Générale des Eaux pour l’Étranger, companhia francesa com sede em Paris e experiente no ramo. O contrato foi assinado em 22 de março de 1882. O sistema era constituído pela Central de Captação de Foz do Sousa, pelo túnel-reservatório de Jovim, pela ponte-sifão sobre o Rio Tinto, pelo Reservatório de Santo Isidro, pelo Reservatório do Monte dos Congregados, pelo Reservatório de São João da Foz (da Pasteleira, atual Reservatório – Museu do Porto) e pela Fonte Monumental (Fonte dos Leões). A Central do Sousa era constituída pela Sala das Máquinas elevatórias e bombas, pela Sala das Caldeiras, oficinas e armazém, e no exterior, pela chaminé, pela Casa do Chefe (habitação e escritório) e açude e respetivas comportas, sendo que mais tarde foi construído um posto de transformação.  
 
  • Central de Captação, filtragem e elevação de Água de Foz do Sousa (1886) em 1939, Arquivo Histórico da AEdP.

    Central de Captação, filtragem e elevação de Água de Foz do Sousa (1886) em 1939, Arquivo Histórico da AEdP.

  • Ponte-sifão sobre o Rio Tinto, 1886. Arquivo Histórico da AEdP.

    Ponte-sifão sobre o Rio Tinto, 1886. Arquivo Histórico da AEdP.

  • Reservatório de Santo Isidro, 1886. Arquivo Histórico da AEdP.

    Reservatório de Santo Isidro, 1886. Arquivo Histórico da AEdP.

  • Reservatório do Monte dos Congregados, 1886. Arquivo Histórico da AEdP.

    Reservatório do Monte dos Congregados, 1886. Arquivo Histórico da AEdP.

  • Fonte Monumental, 1886. Arquivo Histórico da AEdP.

    Fonte Monumental, 1886. Arquivo Histórico da AEdP.

O projeto foi elaborado por Max Schmidt, engenheiro principal, e Gustave Marchand, engenheiro chefe das Ponts et Chaussées de France, o Inspetor Geral e o Diretor Geral da Compagnie, respetivamente. Trabalhavam sob as suas ordens Justo Fernandes, Alexandre de Saldanha da Gama e Eduardo Lobo de Castello Branco, chefes de serviço das 1ª, 2ª, e 3ª secções e ainda Ernest Ringuier da divisão de material e Cesar Goulard da repartição técnica. A construção de todo o sistema foi da responsabilidade da Casa Delune de Paris, com a direção de dois técnicos franceses, Louis Roustan e Celestin Viallet, como chefe e subchefe das obras. Os estudos iniciam-se em julho de 1882 e as obras de construção em março de 1884. Em junho de 1886 as águas do Rio Sousa entravam na cidade do Porto e a exploração regular começou no dia 1 de janeiro de 1887. 

A Compagnie foi a concessionária do sistema de abastecimento de água até ao dia 1 de abril de 1927, quando são criados os SMAS - Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento do Porto. 
 
O SISTEMA
 
Central do Sousa: captação, filtragem e elevação da água do Rio Sousa 

Reservatório de Santo Isidro: recebia a água da Central do Sousa e abastecia a zona média da cidade 

Reservatório do Monte dos Congregados: recebia a água do Reservatório de Santo Isidro e abastecia a zona alta da cidade 

Fonte Monumental: era o ponto de encontro da conduta que ligava o Reservatório de Santo Isidro e o de São João da Foz, regulando a pressão e oxigenando a água 

Reservatório de São João da Foz: recebia a água da Fonte Monumental e abastecia a zona baixa da cidade 
 
A COMPAGNIE
 
Em 14 de dezembro de 1853, Napoleão III autorizou a criação da Compagnie Générale des Eaux. Ganhou a sua primeira concessão de distribuição de água de serviço público na cidade de Lyon. Seguiram-se outras cidades francesas, incluindo Nantes, Nice e Paris. 1880 foi o ano em que a Compagnie se estabeleceu fora de França, assinalando o início da sua expansão internacional, primeiro em Veneza, depois em Constantinopla e no Porto. Em 1884, em Reims, expandiu as suas atividades para incluir o tratamento de águas residuais, pela primeira vez. Em 1898 operava em Veneza, Bérgamo, Spezia, Verona e Porto, e com projetos futuros para Lausanne, Nápoles e Constantinopla. 
 
O GOSTO DA ÁGUA
 
Apesar dos avanços rumo a uma água potável, a “água da Companhia” não foi facilmente aceite pelos portuenses: era o gosto da água o fator problemático. O gosto da água de um poço ou uma fonte, é diferente do gosto da água de um rio. Os portuenses queixavam-se da “falta de sabor” e associavam-na a água de má qualidade. Face ao descontentamento, a grande parte das pessoas continuava a abastecer-se nos poços e nas fontes públicas, apesar de o serviço dos aguadeiros ter sofrido alterações, estabelecidas no contrato com a Companhia. 10ª condição do contrato: 3º:  

“Quando a companhia tiver estabelecido o seu serviço cessará o direito que gosam actualmente os aguadeiros de tirar agua das fontes publicas para a venderem, e para tal fim só poderão ir procura-la nas fontes de venda da companhia, pagando-a pelo preço da tarifa dos particulares”. 
 
ATUALIDADE
 
Atualmente apenas o Reservatório de Santo Isidro é ativo, preservando a sua forma original e a sua função. A Fonte dos Leões é ativo, mas foi sofrendo alterações ao longo do tempo, que lhe modificaram o tanque de receção da água, a câmara de manobras subterrânea, que permitia a gestão das condutas através de torneiras e válvulas, e também o seu sistema hidráulico. O Reservatório do Monte dos Congregados foi demolido para a construção de novos reservatórios circulares em 1957. O Reservatório de São João da Foz foi reabilitado e reutilizado como espaço museológico e é, desde 2019, um dos núcleos da rede do Museu do Porto. Para a Central do Sousa está planeada também a sua reutilização para fins educativos. O túnel-reservatório de Jovim foi ampliado a reservatório na década de 1940 e construído uma estação de tratamento de água. 
 
  • Construção do Reservatório de Jovim, 1941. Arquivo Histórico da AEdP.

    Construção do Reservatório de Jovim, 1941. Arquivo Histórico da AEdP.

  • Demolição do tanque do Reservatório do Monte dos Congregados e construção dos reservatórios circulares, 1957. Arquivo Histórico da AEdP.

    Demolição do tanque do Reservatório do Monte dos Congregados e construção dos reservatórios circulares, 1957. Arquivo Histórico da AEdP.

CURIOSIDADE
A memória da Companhia francesa ficou registada na expressão que os portuenses ainda hoje usam para se referirem à água da torneira: a “água da Companhia”.