EN

Linha d'água

ARQUITETURA(S) DA ÁGUA

Imerge na arquitetura da água e nas suas linguagens artísticas!
 
 
SABIAS QUE?

As arquiteturas da água da cidade do Porto têm a sua própria identidade e fazem parte de movimentos artísticos internacionais? 
 
AS CENTRAIS

A central a vapor surge para dar resposta ao transporte da água desde o seu local de captação, que podia agora ser escolhido pela qualidade da água e não pelo fator de proximidade, até à cidade. O engenho Cornish que permitiu este sistema industrial foi desenvolvido em Cornwall em 1812, foi o engenho utilizado pelas centrais no século XIX, e encontramos um exemplar preservado e musealizado na Central de Lyon. A Central de Lyon, ou Usine des eaux de Lyon-Saint-Clair, também foi construída pela Compagnie Générale des Eaux, a empresa responsável pelo sistema do Porto, o que justifica a proximidade de linguagem arquitetónica com a de Lyon. 

O waterworks style é caracterizado pela influência classicista, onde predominavam os vãos de arco de volta perfeita. As centrais herdadas pelos SMAS, do primeiro sistema de abastecimento de água ao domicílio da cidade do Porto, do século XIX, testemunham esta linguagem arquitetónica que se difundiu a partir da década de 1850. No caso do Porto, as centrais são arquiteturas de planta retangular, de nave única, com vãos de arco de volta perfeita que se abrem nos alçados com cunhais rusticados, de cobertura abobadada com óculo e acompanhadas por uma chaminé. As centrais eram o elemento arquitetónico central de um conjunto industrial constituído pela central e chaminé, um elemento que é introduzido nas cidades a partir de meados do século com a função de controlar a pressão da maquinaria a vapor. A Central do Sousa e a do Reservatório de Santo Isidro são testemunhos desta cronologia e desta linguagem arquitetónica. A Central do Sousa tem uma escala mais significativa e era o elemento central do sistema, pois para além de elevatória, foi concebida também para captar e filtrar a água e por isso o complexo do Sousa é constituído também por galerias filtrantes e um açude para regularizar o nível da água do rio.  
 
  • Central de Captação, filtragem e elevação de Água de Foz do Sousa (1886) em 1939, Arquivo Histórico da AEdP.

    Central de Captação, filtragem e elevação de Água de Foz do Sousa (1886) em 1939, Arquivo Histórico da AEdP.

  • Central de Santo Isidro, [s.d.]. Arquivo Histórico da AEdP.

    Central de Santo Isidro, [s.d.]. Arquivo Histórico da AEdP.

Já a Central de Nova Sintra, construída nos inícios do século XX, pertence à nova fase na história do abastecimento de água, a fase do abastecimento moderno que se inicia em 1920. Esta nova fase é caracterizada pelo abandono da maquinaria a vapor em detrimento da maquinaria elétrica, que veio influenciar as arquiteturas das centrais. A maquinaria elétrica era mais compacta e a necessidade de arquiteturas de grande escala deixou de fazer sentido, resultando em centrais de menores dimensões ou até subterrâneas. 
 
  • Central de Nova Sintra, 1929. Arquivo Histórico da AEdP.

    Central de Nova Sintra, 1929. Arquivo Histórico da AEdP.

OS RESERVATÓRIOS

Os reservatórios industriais foram criados no século XIX e introduzidos no urbanismo das cidades, integrados nos sistemas de abastecimento de água ao domicílio, possibilitados pelas máquinas a vapor. Os primeiros reservatórios a serem construídos no Porto integraram o primeiro sistema de abastecimento ao domicílio. Eram três – Reservatório de Santo Isidro, Reservatório do Monte dos Congregados e Reservatório de São João da Foz – constituídos por dois tanques e pela câmara de manobras, e eram subterrâneos, com exceção do do Monte dos Congregados. A câmara de manobras era um edifício adossado ao reservatório e no qual se fazia a gestão das condutas e da água e cuja estrutura arquitetónica foi replicada nos três reservatórios: três registos verticais sendo que o central é avançado, rematados com arquitrave com cornija saliente e pedra de armas nacional, com três vãos de arco de volta perfeita e cunhais rusticados, e escadaria de acesso ao centro com portão de ferro. No interior haviam colunas de ferro com capitel vegetalista e revestimento a azulejo do chão e paredes. 

Só mais tarde, já no século XX é que o Porto recebe o primeiro reservatório-torre industrial, uma tipologia que se difundiu a partir da segunda metade do século XIX na Europa e que tinha como função reservar água e regular a pressão da água no sistema. Em 1937 foi projetado o Reservatório-torre dos Congregados e mais tarde, na década de 70, os reservatórios do Amial e da Fonte da Moura. 
 
  • Reservatório-torre dos Congregados, 1938. Arquivo Histórico da AEdP.

    Reservatório-torre dos Congregados, 1938. Arquivo Histórico da AEdP.

AS FONTES D’ART

O conceito de Fonte d’Art é criado na segunda metade do século XIX, com base na nova indústria que aliou a arte à indústria – escultura e a fundição -, produzindo artefactos urbanos em série e acessíveis. No Porto, integrou os projetos de melhoramento e desenvolvimento urbano, realizados ao longo do século e no âmbito da Exposição Universal de 1865, que expandiram, alargaram e embelezaram a cidade. A indústria da fundição artística foi efetivada na Exposição Universal de 1867, onde houve pela primeira vez, uma classe específica de “Bronzes d’art, Fontes d’arts diverses, objets en metaux repoussés”. Mas foi na do ano de 1878 que se deu a consagração da indústria de fonte d’art no domínio do embelezamento urbano. A maioria das peças existentes em Portugal foram fabricadas pelas fundições Val d’Osne e Durenne. Esta nova indústria caracteriza-se pela rapidez de produção, em moldes, e pelo preço acessível do ferro fundido. Uma das características do mobiliário urbano do século XIX é, portanto, a sua democratização. E pode ser considerada como unificadora do espaço urbano, onde os catálogos funcionaram como difusores de imagem tal como vimos acontecer com a gravura em cronologias anteriores. 
 
  • Fonte Monumental, 1886. Arquivo Histórico da AEdP.

    Fonte Monumental, 1886. Arquivo Histórico da AEdP.

A cidade do Porto tem exemplares deste contexto artístico, produzidos nas mais emblemáticas fundições de Paris, como os chafarizes dos Jardins do Palácio de Cristal produzidos no contexto do projeto do Palácio de Cristal, a Fonte do Mercado Ferreira Borges e a Fonte dos Leões. 
 
CURIOSIDADE

O elemento decorativo principal da Fonte dos Leões, o leão alado, pertence ao catálogo Nº2 da fundição Val d’Osne, o mais conhecido e difundido pela Europa. Por esta razão, encontramos este leão alado em outras fontes do século XIX, na Grécia, em Inglaterra e em Lisboa.