Linha d'água
A PUREZA CHIMICA DA ÁGUA
Entra na onda da história do tratamento da água!
SABIAS QUE?
Foi só nos finais do século XIX que se analisou as qualidades bacteriológicas das águas do Porto, e é em 1937 que se implementa o tratamento químico da água com cloro!
A HIGIENE NA CIDADE
Desde os primórdios que as águas da cidade foram sendo poluídas através de despejos e lavagens indevidas que retiravam a qualidade da água para beber e se tornavam em centros geradores de doenças. Para evitar a crescente poluição, instaurou-se o acórdão de 31 de agosto de 1613, um código resumido de prescrições sanitárias que protegia os riachos. Em 1640 quem fosse apanhado a cometer tais atos, era multado pelos “meirinhos da saúde”. Mais tarde, em 1732, foram nomeados os “olheiros da limpeza das fontes e tanques da cidade”, um cargo municipal que zelaria pela limpeza das fontes e tanques. A 12 de fevereiro de 1787 a Câmara reuniu uma série de acórdãos, que estiveram em uso até às últimas décadas do século XIX, apresentada como um código, intitulado “Dos entulhos e limpezas da cidade” controlados no espaço público pelos almotacés.
O maior rio da cidade, o Rio de Vila, não escapou à poluição e o acumular de lixos fez com que fosse encanado em 1763 e depois em 1875.
Na portaria de 12 de dezembro de 1896, nomeava-se uma comissão para que «(…) examinando as circunstâncias locais, proponham as providências que devem adotar-se para obstar à poluição das águas dos rios Sousa e Ferreira.» Desta comissão faziam parte Ricardo de Almeida Jorge e António Joaquim Ferreira da Silva, chefe do serviço de saúde e higiene e o diretor do laboratório químico municipal. O resultado deste trabalho foi o decreto-lei de 21 de janeiro de 1897 em que é aprovada a substituição do texto do Regulamento para os Serviços Hidráulicos, apontando medidas para a prevenção das causas de contaminação das águas.
ANÁLISE DA ÁGUA
Em 1892 Ricardo Jorge é convidado para a organização dos Serviços Municipais de Saúde e Higiene da Cidade do Porto, cuja direção assumiu, responsabilizando-se ainda pela secção bacteriológica. Foi então levado a cabo um estudo químico das águas da cidade, com oito publicações, sobre análises realizadas aos rios Sousa e Ferreira, em Gondomar, às fontes, aos poços, bem como considerações técnicas sobre o abastecimento de água às cidades. Este estudo possibilitou a interditação do consumo das águas impróprias para consumo, levando à criação de uma sinalética aplicada às fontes públicas. Depois deste estudo, as fontes cuja água não obteve resultados favoráveis, foram sinalizadas com um triângulo preto nas respetivas bicas, pois muitas fontes com mais que uma bica, recebiam água de proveniências distintas.
Em nota histórica no “Plano Director do Saneamento” dos SMAS de 1966:
“(…) evitou-se a propagação por contaminação das águas, analisando as fontes publicas e marcando-as com sinais fáceis de distinguir pelos analfabetos: um triângulo preto para a água suspeita, que só devia ser usada para lavagens ou consumida depois de fervida, e um letreiro de cerca de 0,50 m de comprimento, preto também, dizendo “AGUA BOA” naquela que podia ser consumida sem precauções. Os aguadeiros, evidentemente, foram proibidos de se abastecer nas primeiras, pelo que a água deles continuou a ser de confiança.”
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Fonte das Oliveiras em 1908 com o triângulo negro a sinalizar a bica do lado direito. Arquivo Histórico da AEdP.
TRATAMENTO QUÍMICO
Com a criação dos Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento do Porto em 1927, agiu-se para prevenir contaminações da água da cidade, começando pela limpeza das condutas dos reservatórios herdados da Compagnie e substituição por condutas de ferro e instalação de fontanários com água potável ao longo do século XX. Mas é em 1937 que é institucionalizado o tratamento químico da água com cloro. Até ali, a “água da companhia” era água captada no Rio Sousa e apenas filtrada nas galerias filtrantes da Central do Sousa. Estas galerias filtrantes eram de “sistema inglês”, introduzido em Londres em 1829 pelo engenheiro James Simpson da Companhia das Águas de Chelsea, e constituía em câmaras filtrantes por onde a água atravessa uma série de camadas de espessuras variáveis construídas por materiais de dimensões crescentes, retirando-lhe os sedimentos de maiores dimensões.
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Central do Sousa e galerias filtrantes em 1950. Arquivo Histórico da AEdP.
Este tratamento veio compensar a ineficácia das galerias filtrantes da Central do Sousa através de um tratamento químico. Era feito à entrada do Túnel-Reservatório de Jovim, onde ainda hoje é uma estação de tratamento de água. E para isso, construiu-se um pequeno edifício ao lado da câmara de entrada, onde foram instalados os tanques de preparação, concluindo-se a mistura no túnel e na conduta adutora. Ao lado, foi construída uma outra instalação para a correção de eventuais gostos atribuídos pelo cloro. O eventual excesso de cloro era neutralizado à entrada dos reservatórios da cidade. Esta nova implementação foi materializada na sede dos Serviços, com a construção de um laboratório para a realização das análises químicas da água recolhida nos pontos de abastecimento do sistema.
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![Sala do primitivo Laboratório dos SMAS, [s.d.]. Arquivo Histórico da AEdP.](/imagens/galeria/slideshow_137_1.jpg)
Sala do primitivo Laboratório dos SMAS, [s.d.]. Arquivo Histórico da AEdP.
Ao longo do século XX foi também difundida a construção de lavadouros públicos, do tipo “municipal”, de forma a minimizar lavagens indevidas nos cursos de água, através de estruturas que fomentavam a higiene e o conforto para as lavadeiras com a implementação de canalização, tanques ou pias individuais com água corrente e espaçosos a um nível que permitia às lavadeiras estarem de pé.
CURIOSIDADE
O edifício original do laboratório da sede da Águas e Energia do Porto foi requalificado em 2021 com um projeto de arquitetura contemporânea da autoria do conceituado Arquiteto Eduardo Souto de Moura.