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Linha d'água

AGUADEIRO: ANTES DO SISTEMA DE ABASTECIMENTO, DO CONTADOR E DO MARCO DE INCÊNDIO

Submerge na história da figura do aguadeiro!
 
  
 
SABIAS QUE?


O abastecimento de água na cidade do Porto, para aqueles que não tinham poços privados, era feito através das fontes públicas, alimentadas com água de nascentes. Ou, a partir do século XVIII, através dos aguadeiros. Eram eles os responsáveis pelo comércio da água: distribuição de água recolhidas nas fontes públicas, vendendo-a pelas ruas e para os mais abastados, ao domicílio.
 
A PROFISSÃO

A figura do aguadeiro, que se pode interpretar como o antecessor do sistema de abastecimento de água ao domicílio, era o responsável pela distribuição de água na cidade.

Ser-se aguadeiro era uma profissão, devidamente legislada e regularizada por lei, através de licença emitida pela Câmara Municipal. O distintivo de aguadeiro no Porto era uma chapa metálica com o número de matrícula de cada aguadeiro, que era levada ao peito, como identificação. 

Os aguadeiros, enquanto vendedores de água, forneciam a água mediante um contrato estabelecido por mútuo acordo com quem recebia a água. O aguadeiro fornecia água de manhã e pela tarde, por um pagamento que não passava além de meia dúzia de reis por mês, cuja unidade de medida era o barril. Por essa razão, o formato e as dimensões do barril eram regulamentados, tendo de ser, obrigatoriamente, de forma oblonga, com preço fixo estabelecido.

Para a profissão estavam também estabelecidas as fontes que deveriam ser exploradas para o abastecimento. Em 1821 a Câmara determina as fontes públicas reservadas aos aguadeiros, nomeadamente aquelas que tinham duas bicas. Nestes casos, uma bica era reservada aos aguadeiros e identificada com uma sinalética. As mais frequentadas eram as da Rua do Laranjal, de Cedofeita, do Largo do Padrão, das ruas do Bonjardim, de Mouzinho da Silveira, das Oliveiras, das Fontainhas e do Bolhão, devido à forte presença da burguesia mercantil naqueles bairros.

A profissão de aguadeiro era mais do que distribuição de água, acatando nela, também, o combate aos incêndios. Em 1395 uma carta régia de D. João I indicou providências a adotar no combate a incêndios, nomeando as mulheres como responsáveis desta tarefa, pois eram quem, diariamente, abastecia a casa com água recolhida nas fontes públicas com o seu cântaro transportado à cabeça. Eram, por isso, as mais conhecedoras da localização de água na cidade e traziam consigo um cântaro para transporte da água, reservando nelas, as condições para o combate a incêndios. 

Com a comercialização da água e a criação da profissão do aguadeiro no século XVIII, ficaram estes os responsáveis por auxiliar em caso de incêndio, organizados por Companhias, cada uma destinada a um grupo de chafarizes da cidade. Em 1722 foi fundada a Companhia do Fogo do Porto, também conhecida como Companhia da Bomba. Era obrigatório os aguadeiros fornecerem água para funcionamento das bombas assim que ouviam os sinos das igrejas, que identificavam a freguesia onde decorria o incêndio, através do número de badaladas, assinalado nas caixas de incêndio, como uma legenda dos “toques de incêndio”, instaladas nas igrejas principais.

Formaram-se três grupos constituídos por aguadeiros matriculados na Câmara, cada um atribuído uma Companhia e a cada Companhia um conjunto de fontes públicas. O primeiro grupo era constituído pelos chafarizes da Batalha, Santa Catarina, Rua Chã e S. Sebastião; o segundo pelos da Praça de Santa Tereza, Rua do Almada, Rua das Oliveiras, Rua da Fábrica do Tabaco, Praça Nova e Porta do Olival; e o terceiro pelos de S. Domingos, Taipas, Congostas, Praça da Ribeira, Fonte da Areia e Fonte da Colher. Cada Companhia tinha um chafariz principal para abastecimento, sendo o da primeira o da Batalha, o da segunda, o da Praça de Santa Tereza e o da terceira o de São Domingos. E para cada chafariz principal existia um capataz-mor e para os restantes um capataz, estando todos subordinados ao Capitão Comandante da Companhia da Bomba.

A partir de 1868 são introduzidas as bombas a vapor, originando a obrigatoriedade de instalação de bocas de incêndio nos prédios.
 
QUEM ERAM?

Eram, nos séculos XVIII e XIX, conhecidos como “galegos”, pois eram, na sua maioria, de origem espanhola. Homens naturais da Galiza, que procuravam, nos centros urbanos do Porto, Douro e Lisboa, melhores condições de vida para garantir a subsistência da família, maioritariamente de Pontevedra e cidades à margem do Rio Miño

Para uma iconografia da figura tipo, com base em gravuras e registos fotográficos do século XIX, de caráter etnográfico, o seu traje era caracterizado pelo adereço de cabeça, proteção para o ombro feita em tecido ou pele e o barril oblongo com uma pega metálica em uma das extremidades.
 
CURIOSIDADE

Em galego, “Augador”, remete-nos para a expressão “auga”, perpetuada até hoje pelas gerações mais antigas em Portugal.

«Aú, Aú! Água fresca, água fresquinha!»

«Aú» era a abreviatura para «auga», água em galego, que os aguadeiros gritavam pelas ruas, como forma de pregão musical.