EN

Linha d'água

CANALLEM MAIORUM: O RIO DA VILA

​​​​​​​«Vai por água abaixo» pela história da água do Porto na Idade Média!
 
 
SABIAS QUE?

A primeira referência conhecida a mananciais, arcas e nascentes na cidade do Porto remonta ao século XII e à “Carta de doação e couto do burgo do Porto a favor do bispo D. Hugo e seus sucessores”, de D. Teresa, datada de 18 de abril de 1120. Nesta carta é mencionado o Manancial de Paranhos. E em maio de 1138, na “Carta de confirmação e ampliação do Couto dado por Dona Teresa à Sé do Porto”, de D. Afonso Henriques, estes elementos são referenciados como tendo função de marcos divisórios do território.
 
O CANAL MAIOR

O Canal Maior, referido nestas cartas como “Canallem Maiorum”, Canal Maior, trata-se do Rio de Vila, sendo o Rio Frio, o Canal Menor. Passaram a ser assim designados os dois rios da cidade, com os nomes que conhecemos hoje, no reinado de D. Afonso IV (1325-1357).

Durante séculos, o abastecimento de água à cidade do Porto foi feito através dos cursos de água como ribeiros, minas ou poços. O principal foi o Rio da Vila, que da zona do Marquês seguia até o Rio Douro, recebendo as águas de um caudal que nascia na atual Praça Almeida Garrett. Em importância, seguiu-se o Rio Frio, cuja nascente se situava perto da Rua da Torrinha e passava pelo Hospital de Santo António, pela zona das Virtudes, desaguando nesta zona, também no Rio Douro.

O Rio de Vila tornou-se, por volta do século XV, um centro de contaminações, doenças infeciosas e lixos, pois era entendido como um local de despejo. Face a este panorama de crescente acumulação de resíduos, em 1763 a Câmara Municipal manda encanar o rio, com o objetivo de controlar o risco de epidemias. Construiu-se um aqueduto subterrâneo em galeria de grande escala e sob esta construiu-se a Rua de São João. O restante caudal foi encanado em 1875, aquando da abertura da Rua de Mouzinho da Silveira.
 
O MEIRINHO DA SAÚDE

O estado imundo do Rio levou a Câmara do Porto a emitir, ao longo dos anos, uma série de acórdãos para evitar o agravamento da sua contaminação, aplicando sanções àqueles que contribuíssem para a poluição das águas.

O Acórdão de 31 de agosto de 1613 é um código de prescrições sanitárias que protege não só o Rio de Vila, mas todos os recursos hídricos da cidade, com aplicação de sanções. As multas eram aplicadas pelo “Meirinho da Saúde”, cuja função, destacada pela Câmara, era controlar os despejos indevidos nas águas. Entretanto, a Câmara criou um cargo municipal com funções mais específicas para controlo da limpeza dos chafarizes, das fontes e dos tanques da cidade. Na Ata de Vereações de 5 de julho de 1732, são nomeados os doze detentores da tarefa de limpeza das fontes públicas, os “olheiros da limpeza”, tal como são referidos na Ata.

A 12 de Fevereiro de 1787 a Câmara reuniu um conjunto de acórdãos, que se mantiveram em uso até às últimas décadas do século XIX, como um código de posturas, intitulado “Dos entulhos e limpezas da cidade”.
 
OUTRAS ÁGUAS

A dificuldade em garantir água de qualidade aos portuenses durante a Época Moderna, face ao aumento da demografia e escassez de recursos naturais, motivou a decisão de dotação das águas de Paranhos de uma estrutura edificada, no tempo dos Filipes (1580-1640). Em abril de 1660, o Alvará de D. Afonso VI (1643- 1683) dá permissão à Câmara para cobrar um real sobre cada rasa de sal que entrasse na cidade que serviriam para pagar as obras de construção do Manancial de Paranhos, o mais importante da cidade pela abundância das suas nascentes.

Apesar de o Manancial de Paranhos ter sido o mais importante, existiram os mananciais do Campo Grande, das Virtudes e de Malmeajudas que também forneciam água a várias fontes públicas e propriedades privadas com poder monetário para pagar o custo da água à Câmara Municipal.

Ainda que existissem mananciais a partir dos quais seguiam aquedutos para abastecer a cidade, nos séculos XVII e XVIII, eram muitas as fontes públicas que eram abastecidas por nascente própria, o que indica a abundância recursos hídricos na cidade. Estas, muitas vezes, eram construídas no local das nascentes, ou em local próximo, de onde a água era encaminhada até à fonte.
 
UM SEGREDO

O Rio de Vila ainda corre atualmente, debaixo dos nossos pés!