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Histórico de fontes
Fonte da Praça da Ribeira, do medievo ao contemporâneo
A Fonte da Ribeira tem origem no século XVIII, herdando o papel de ponto de abastecimento na praça, de um chafariz de aparato do século XVII. Este chafariz sobrevive, interpretado a partir das pedras do seu tanque, na obra “O Cubo”, da autoria de José Rodrigues, datada de 1983. O desenho recortado do tanque reflete um gosto barroco, o que nos diz que o chafariz desempenharia um elemento de ornamento de destaque na praça. Em 1980 o local foi alvo de uma escavação arqueológica de Armando Coelho Ferreira da Silva. Foram encontrados, a cerca de um metro de profundidade da Praça da Ribeira, os vestígios do antigo chafariz, ao centro da praça.
A existência de uma fonte de água na praça é transversal à história da praça, apesar de esta nem sempre ter tido a configuração atual, sempre foi um ponto de afluência.
A Praça da Ribeira é de raiz setecentista e desenvolve-se associada ao rossio medieval, desempenhando desde as origens da cidade, funções alfandegárias, com a chegada de barcos comerciantes, funções comerciais através do cais da Ribeira e funções piscatórias, pela sua proximidade com o Rio Douro. Funções eternizadas pela Rua dos Mercadores que ladeia a fonte, não fosse a praça junto a uma das portas de entrada da muralha fernandina da cidade, a Porta da Ribeira. Mais tarde, com a abertura do eixo que a ligava à zona alta da cidade, a Rua de São João, que também denomina a Fonte da Ribeira como Fonte de São João, foi-lhe conferida a configuração atual. A sua organização, que em planta se abre para o Rio, sofreu uma reforma impulsionada pela Junta das Obras Públicas, no período almadino, o que lhe conferiu o gosto moderno, presente na uniformização das fachadas com pórtico em arcada. A sua arquitetura reflete a tipologia de fonte pública “dos almadas”, período caracterizado pela construção de fontes de espaldar normalmente encostado ou adossado a um muro ou edifício, respondendo aos preceitos de modernização da cidade que assentavam na valorização do espaço público e nas ruas amplas, privilegiando a circulação, de acordo com os ideais iluministas da época.
Integra a zona classificada como Património Mundial pela UNESCO em 1996, o Centro Histórico do Porto.
A existência de uma fonte de água na praça é transversal à história da praça, apesar de esta nem sempre ter tido a configuração atual, sempre foi um ponto de afluência.
A Praça da Ribeira é de raiz setecentista e desenvolve-se associada ao rossio medieval, desempenhando desde as origens da cidade, funções alfandegárias, com a chegada de barcos comerciantes, funções comerciais através do cais da Ribeira e funções piscatórias, pela sua proximidade com o Rio Douro. Funções eternizadas pela Rua dos Mercadores que ladeia a fonte, não fosse a praça junto a uma das portas de entrada da muralha fernandina da cidade, a Porta da Ribeira. Mais tarde, com a abertura do eixo que a ligava à zona alta da cidade, a Rua de São João, que também denomina a Fonte da Ribeira como Fonte de São João, foi-lhe conferida a configuração atual. A sua organização, que em planta se abre para o Rio, sofreu uma reforma impulsionada pela Junta das Obras Públicas, no período almadino, o que lhe conferiu o gosto moderno, presente na uniformização das fachadas com pórtico em arcada. A sua arquitetura reflete a tipologia de fonte pública “dos almadas”, período caracterizado pela construção de fontes de espaldar normalmente encostado ou adossado a um muro ou edifício, respondendo aos preceitos de modernização da cidade que assentavam na valorização do espaço público e nas ruas amplas, privilegiando a circulação, de acordo com os ideais iluministas da época.
Integra a zona classificada como Património Mundial pela UNESCO em 1996, o Centro Histórico do Porto.
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Saber+ sobre as fontes almadinas
Fonte de Mouzinho da Silveira: uma ponte, uma fonte e uma loja
Em 1872 foi projetada a Rua de Mouzinho da Silveira e em equação esteve o corte de uma das artérias mais antigas da cidade, de origem medieval, a Rua de Pelames. Em vez disso, projetou-se um grande arco que sustentasse a rua e para o interior do vão projetou-se uma fonte com duas bicas e um largo tanque, a Fonte Monumental de Mouzinho da Silveira. A bica oeste era abastecida pelos mananciais de Paranhos e Salgueiros, enquanto a bica leste recebia água de uma fonte instalada na rua do Almada. Mais tarde, recebeu a água da Arca do Mercado do Anjo que seguia até à Fonte da Praça da Ribeira.
Antes da abertura da rua, naquele local existiu uma fonte enquadrada numa praça monumental de gosto barroco composta por escadaria de aparato que ligava ao nível superior onde estava a Capela de São Roque de planta hexagonal. A fonte era constituída por um conjunto escultórico composto por um Eros e um golfinho ao centro e um largo tanque que recebia a água. O conjunto estava enquadrado num vão ao centro do lanço de escadas. A praça em forma de meia laranja, era o Largo do Souto ou Largo de São Roque. Junto ao alçado tardoz da capela ficava a Rua dos Pelames. A praça, a fonte e a capela foram demolidos para a abertura da rua. O conjunto escultórico está preservado na coleção de lapidária do Museu Nacional de Soares dos Reis.
Este local ficou também marcado pelo encanamento do Rio de Vila em 1763 aquando da construção da Rua de São João e mais tarde O restante caudal foi encanado em 1875 aquando da abertura da Rua de Mouzinho da Silveira.
Para saber+ sobre o Rio de Vila clicar aqui. [ligação para página “Canallem Maiorum” da linha d’água]
Na década de 1920 no vão monumental da fonte foram instaladas duas lojas comerciais de pão e bolachas, e as partes constituintes da fonte numeradas e preservadas nas instalações dos SMAS. Para abastecimento de água aos locais instalou-se a Fonte do Souto, à entrada da rua do mesmo nome, onde ainda hoje está.
Em 21 de dezembro de 1965 foi aprovado o projeto de Bernardino Basto Fabião para a reconstrução da fonte que a trouxe de volta à cidade.
Antes da abertura da rua, naquele local existiu uma fonte enquadrada numa praça monumental de gosto barroco composta por escadaria de aparato que ligava ao nível superior onde estava a Capela de São Roque de planta hexagonal. A fonte era constituída por um conjunto escultórico composto por um Eros e um golfinho ao centro e um largo tanque que recebia a água. O conjunto estava enquadrado num vão ao centro do lanço de escadas. A praça em forma de meia laranja, era o Largo do Souto ou Largo de São Roque. Junto ao alçado tardoz da capela ficava a Rua dos Pelames. A praça, a fonte e a capela foram demolidos para a abertura da rua. O conjunto escultórico está preservado na coleção de lapidária do Museu Nacional de Soares dos Reis.
Este local ficou também marcado pelo encanamento do Rio de Vila em 1763 aquando da construção da Rua de São João e mais tarde O restante caudal foi encanado em 1875 aquando da abertura da Rua de Mouzinho da Silveira.
Para saber+ sobre o Rio de Vila clicar aqui. [ligação para página “Canallem Maiorum” da linha d’água]
Na década de 1920 no vão monumental da fonte foram instaladas duas lojas comerciais de pão e bolachas, e as partes constituintes da fonte numeradas e preservadas nas instalações dos SMAS. Para abastecimento de água aos locais instalou-se a Fonte do Souto, à entrada da rua do mesmo nome, onde ainda hoje está.
Em 21 de dezembro de 1965 foi aprovado o projeto de Bernardino Basto Fabião para a reconstrução da fonte que a trouxe de volta à cidade.
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Saber+ sobre o Rio de Vila
O milagre por detrás da Fonte da Senhora de Campanhã
Durante um longo período de seca extrema que começava a ameaçar trazer a fome às pessoas e animais de Campanhã, foi pedida ajuda à padroeira de Campanhã. Em 1772 a comunidade lançou-se numa procissão em sua honra que tinha como objetivo apelar à misericórdia da santa. Em procissão para pedir chuva, a imagem de Nossa Senhora caiu do andor e partiu uma mão. A comunidade foi surpreendida com água que brotava no local da queda a mão da santa, na Rua de Bonjóia. Ficou conhecido como o “Milagre de Nossa Senhora de Campanhã” e dele nasceu uma fonte pública. Atualmente ainda existe uma fonte pública na mesma rua, conhecida como Fonte de Bonjóia ou Fonte da Senhora. O acontecimento divino foi assinalado com a construção de uma coluna comemorativa que simboliza o milagre e que na sua base contém:
«Á MEMORIA DE N.S. DE CAMPANHÃ EM RECONHECIMENTO DA GRANDE SECA Q HOUVE EM MARÇO NO ANNO DE 1772. NO DIA 23 DE MARÇO DO ANNO DE 1772 INDO N. S. DE CAMPANHÃ EM PROCISSÃO Á SPOR CAUSA DA GRANDE SECCA Q. HOUVE N’AQUELLE ANNO NA OCAZIÃO EM Q. N. S. REGREÇAVA A (lado sul do plinto)
IGREJA CAHIO AQUI O ANDÔR BATENDO A S. COM O SEU SANTISSIMO BRAÇO ESQUERDO NA ROCHA FRONTEIRA QUEBRANDO DOIS DEDOS COMESOU LOGO A BROTAR A AGUA Q AHINDA HOJE SE FAS MENÇÃO OS DEVOTOS JOÃO COELHO DA ROCHA E JOSÉ PEREIRA CAMPOS MANDARAM COLLOCAR ESTE HUMILDE MONOMENTO EM RECONHECIMENTO DE TÃO GRANDE MILAGRE.» (lado poente do plinto)
«Á MEMORIA DE N.S. DE CAMPANHÃ EM RECONHECIMENTO DA GRANDE SECA Q HOUVE EM MARÇO NO ANNO DE 1772. NO DIA 23 DE MARÇO DO ANNO DE 1772 INDO N. S. DE CAMPANHÃ EM PROCISSÃO Á SPOR CAUSA DA GRANDE SECCA Q. HOUVE N’AQUELLE ANNO NA OCAZIÃO EM Q. N. S. REGREÇAVA A (lado sul do plinto)
IGREJA CAHIO AQUI O ANDÔR BATENDO A S. COM O SEU SANTISSIMO BRAÇO ESQUERDO NA ROCHA FRONTEIRA QUEBRANDO DOIS DEDOS COMESOU LOGO A BROTAR A AGUA Q AHINDA HOJE SE FAS MENÇÃO OS DEVOTOS JOÃO COELHO DA ROCHA E JOSÉ PEREIRA CAMPOS MANDARAM COLLOCAR ESTE HUMILDE MONOMENTO EM RECONHECIMENTO DE TÃO GRANDE MILAGRE.» (lado poente do plinto)
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Fonte de Bonjóia em 1908
Mais tarde, já na segunda metade do século XX, construiu-se uma capela de evocação à Nossa Senhora de Campanhã, que ali foi memorizada como “Nossa Senhora da Fonte”. No local onde se constrói a capela, existiam tanques lavadouros.
A imagem de Nossa Senhora de Campanhã esteve muitos anos guardada num pequeno ninho adoçado à coluna comemorativa. Hoje pode ser visitada na Igreja Paroquial. Considerada uma das mais belas imagens da Virgem existentes na Diocese do Porto, é uma peça esculpida em calcário, estofada e policromada, de influência francesa e atribuída ao século XIV.
A imagem de Nossa Senhora de Campanhã esteve muitos anos guardada num pequeno ninho adoçado à coluna comemorativa. Hoje pode ser visitada na Igreja Paroquial. Considerada uma das mais belas imagens da Virgem existentes na Diocese do Porto, é uma peça esculpida em calcário, estofada e policromada, de influência francesa e atribuída ao século XIV.
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Coluna e lavadouros em 1908.
Junto da fonte encontra-se um aqueduto, ou o que resta dele, depois da construção da VCI, que outrora distribuía água à zona e provavelmente à Quinta da Bonjóia com água vinda de uma mina que se situava nos atuais terrenos da Estação de Campanhã.
A Fonte Monumental, que nunca foi dos Leões
O sistema de abastecimento de água ao domicílio também veio trazer à cidade uma fonte de fonte d’art produzida em Paris e trazida para a antiga Praça dos Voluntários da Rainha, atual Praça de Gomes Teixeira, ou como é comummente conhecida, a Praça dos Leões. Produto de uma indústria que concilia a vertente prática com a estética, a arte e a indústria, a indústria “fonte d’art”, a Fonte Monumental reflete isso mesmo: para além de funcionar como ornamento no espaço público, pela sua composição escultórica e jogos de água, desempenhava funções técnicas. A fonte estabelecia ligação com a conduta principal que vinha desde o Reservatório de Santo Isidro, ou seja, com a conduta que abastecia a zona média (núcleo da cidade), e com a conduta que abastecia a zona baixa da cidade (zona ribeirinha) e o Reservatório de São João da Foz (atual Reservatório – Museu do Porto). Funcionando, assim, como um ponto de encontro que era essencial para a oxigenação e regulação da pressão das águas, dado a grande extensão da conduta que ligava os dois reservatórios e as duas zonas da cidade. Para além disso, um conjunto de torneiras adufas situadas no subsolo, na câmara de manobras, possibilitava o corte da passagem das águas de uma das condutas dos reservatórios em casos de emergência ou situações de manutenção e intervenção.
Para saber+ sobre o 1º sistema industrial de abastecimento de água ao domicílio clicar aqui. [ligação para página “água da companhia” da linha d’água]
A Exposição Universal de 1867, em Paris, é a primeira a efetivar a indústria da Fundição Artística, a fonte d’art, com uma exposição de artefactos em ferro fundido da Fundição Val d’Osne. Aqui houve pela primeira vez uma classe específica de “Bronzes d’art, Fontes d’arts diverses, objets en metaux repoussés.” A do ano de 1878 foi o da consagração da indústria de fonte d’art no domínio do embelezamento urbano. A maioria das peças existentes em Portugal foram fabricadas pela fundição Val d’Osne e pela fundição Durenne, as mais emblemáticas de Paris e responsáveis pelo difundir desta indústria a nível internacional através dos seus catálogos.
No caso de Portugal, podemos entender a Exposição Universal de 1865, realizada no Porto, como a que relevou o impacto dos artefactos urbanos no urbanismo. Exemplares de fonte d’art provenientes de fundições francesas são encontrados nos jardins do Palácio de Cristal, trazidos de Paris para embelezar os jardins para a exposição, mas também a Fonte do Mercado Ferreira Borges, com alegorias à fauna e flora, atualmente instalada também nos Jardins do Palácio de Cristal e produzida pela fundição Val d’Osne, tal como a Fonte dos Leões.
Para saber+ sobre o 1º sistema industrial de abastecimento de água ao domicílio clicar aqui. [ligação para página “água da companhia” da linha d’água]
A Exposição Universal de 1867, em Paris, é a primeira a efetivar a indústria da Fundição Artística, a fonte d’art, com uma exposição de artefactos em ferro fundido da Fundição Val d’Osne. Aqui houve pela primeira vez uma classe específica de “Bronzes d’art, Fontes d’arts diverses, objets en metaux repoussés.” A do ano de 1878 foi o da consagração da indústria de fonte d’art no domínio do embelezamento urbano. A maioria das peças existentes em Portugal foram fabricadas pela fundição Val d’Osne e pela fundição Durenne, as mais emblemáticas de Paris e responsáveis pelo difundir desta indústria a nível internacional através dos seus catálogos.
No caso de Portugal, podemos entender a Exposição Universal de 1865, realizada no Porto, como a que relevou o impacto dos artefactos urbanos no urbanismo. Exemplares de fonte d’art provenientes de fundições francesas são encontrados nos jardins do Palácio de Cristal, trazidos de Paris para embelezar os jardins para a exposição, mas também a Fonte do Mercado Ferreira Borges, com alegorias à fauna e flora, atualmente instalada também nos Jardins do Palácio de Cristal e produzida pela fundição Val d’Osne, tal como a Fonte dos Leões.
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Desenho do projeto original para a Fonte Monumental, 1883.
O projeto original para a Fonte Monumental apresentado pela Compagnie à Câmara do Porto em 1883 era de um modelo de fonte do catálogo de uma das fundições mais emblemáticas de Paris, a Fundição Durenne. O modelo é do catálogo “Durenne Fontaines” e previa um modelo de duas taças e com um programa decorativo mais minucioso. O projeto foi reprovado para Câmara e foi aprovado um novo modelo de fonte da Fundição Val d’Osne, pertencente ao catálogo mais difundido da fundição, o Nº2 dedicado às Fontes d’Art publicado em 1881, na secção “Animaux”.
Uma das características do mobiliário urbano do século XIX é o fabrico em moldes, democratizando-o, de certa forma, pelo preço acessível e pela difusão dos artefactos e das suas formas, através dos catálogos. E por essa razão, encontramos vários artefactos com o elemento do “leão” que encontramos na Fonte dos Leões, em território nacional e internacional, produzidos pela mesma fundição francesa. A fonte da praça Jorge I em Patras, na Grécia de 1875, a de Leicester Town Hall em Leicester fabricada no ano de 1878, e os elementos escultóricos da fonte da Avenida da Liberdade em Lisboa, de 1879-1886. Não fizesse este “leão” parte do álbum de catálogo Nº2, o considerado mais conhecido e completo dedicado às fontes d’art da Val d’Osne, onde é descrito como “grifo”. Será que a Fonte Monumental nunca foi dos leões, mas sim, dos grifos?
Uma das características do mobiliário urbano do século XIX é o fabrico em moldes, democratizando-o, de certa forma, pelo preço acessível e pela difusão dos artefactos e das suas formas, através dos catálogos. E por essa razão, encontramos vários artefactos com o elemento do “leão” que encontramos na Fonte dos Leões, em território nacional e internacional, produzidos pela mesma fundição francesa. A fonte da praça Jorge I em Patras, na Grécia de 1875, a de Leicester Town Hall em Leicester fabricada no ano de 1878, e os elementos escultóricos da fonte da Avenida da Liberdade em Lisboa, de 1879-1886. Não fizesse este “leão” parte do álbum de catálogo Nº2, o considerado mais conhecido e completo dedicado às fontes d’art da Val d’Osne, onde é descrito como “grifo”. Será que a Fonte Monumental nunca foi dos leões, mas sim, dos grifos?
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Fonte dos Leões, 1983.
A influência francesa neste tema na cidade do Porto está associada não só à Exposição Universal de 1865 onde a presença francesa se fez notar com 499 expositores, mas também à publicação “Les Promenades de Paris (1867-1973)” que enfatiza o papel do mobiliário urbano de ferro fundido na paisagem oitocentista e a importância do abastecimento de água para combater a insalubridade. E a direta influência no projeto para o sistema de abastecimento ao domicílio não só de Eugéne Gavand, mas também da Companhia concessionária responsável pela construção do sistema, a Compagnie Générale des Eaux pour L'Etranger.
Fontes de ferro: do cortejo comunitário à imagética internacional
Para saber+ sobre a indústria da Fontes d’Art clicar aqui. [ligação para página “arquiteturas da água” da linha d’água]
Com o desenvolvimento da indústria no século XIX, o abastecimento de água tirou proveito da indústria da fundição e da fundição do ferro para servir a cidade de água. No início do século XX foram instalados pelo espaço público pequenos fontanários em ferro abastecido pela “água da Companhia”. Este fenómeno foi motivado pela contaminação das águas decorrente do aumento da indústria e da demografia que por sua vez levou ao processo de retirada de fontes da cidade ou a substituição da sua água por “água da Companhia”. Ainda assim estes fontanários eram preferíveis devido à simplicidade na sua manutenção, mas também, porque constituíam um obstáculo menor ao crescimento construído da cidade.
Apesar do sistema industrial de abastecimento ao domicílio ter começado a operar em pleno em 1887, a “água da Companhia” demorou a chegar às torneiras de todos os portuenses. A democratização do acesso a água de boa qualidade foi materializada por estes fontanários, que eram baratos de produzir e de fácil instalação, permitindo assim, o aumento do número de pontos de água na cidade, que foi gradualmente abrangendo as periferias.
Com o desenvolvimento da indústria no século XIX, o abastecimento de água tirou proveito da indústria da fundição e da fundição do ferro para servir a cidade de água. No início do século XX foram instalados pelo espaço público pequenos fontanários em ferro abastecido pela “água da Companhia”. Este fenómeno foi motivado pela contaminação das águas decorrente do aumento da indústria e da demografia que por sua vez levou ao processo de retirada de fontes da cidade ou a substituição da sua água por “água da Companhia”. Ainda assim estes fontanários eram preferíveis devido à simplicidade na sua manutenção, mas também, porque constituíam um obstáculo menor ao crescimento construído da cidade.
Apesar do sistema industrial de abastecimento ao domicílio ter começado a operar em pleno em 1887, a “água da Companhia” demorou a chegar às torneiras de todos os portuenses. A democratização do acesso a água de boa qualidade foi materializada por estes fontanários, que eram baratos de produzir e de fácil instalação, permitindo assim, o aumento do número de pontos de água na cidade, que foi gradualmente abrangendo as periferias.
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Cerimónia de inauguração de um fontanário no Pego Negro (Foz) a 15 de novembro de 1953.
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Cortejo de inauguração de um fontanário em Zebreiros (Gondomar) a 14 de novembro de 1954.
As fontes de ferro surgem no Porto no pico do desenvolvimento desta indústria, no século XIX. Estes elementos de mobiliário urbano conheceram a sua difusão a nível internacional neste período e foram alguns os exemplares que chegaram até aos dias de hoje. Os exemplares das Fontes d’Art são a Fonte dos Leões, a Fonte do Mercado Ferreira Borges, Fonte da Quinta de São Roque da Lameira e as fontes dos Jardins do Palácio de Cristal.
Estes modelos que encontramos no Porto são modelos de Fontes d’Art da fundição mais emblemática na indústria francesa, a Val d’Osne criada em 1836. Com exceção do modelo dos chafarizes dos Jardins do Palácio de Cristal cujo modelo é da Ducel Fonderie criada em 1823 e comprada em 1878 pela sua rival, a Val d’Osne. O modelo destes chafarizes foi exibido na Exposição Universal de Paris de 1867.
Chafariz do Laranjal, viajante no espaço e no tempo
Pensa-se que terá sido construído com as pedras do antigo Chafariz do Largo de São Domingos, construído no largo que o denomina, na continuidade da Rua das Flores, em 1544. O antigo chafariz ocupava o centro do largo e foi demolido aquando da sua substituição pela também extinta Fonte de São Domingos, de espaldar monumental, construída no rescaldo dos projetos almadinos e inaugurada em 1849.
É um chafariz de granito, exemplar único da tipologia de chafariz de taças no espaço público da cidade. A sua composição desenvolve-se em base e 2 planos principais constituídos pelo tanque de planta circular de faces lisas e pelo plinto quadrangular de faces emolduradas e ornamentadas com florões relevados que sustenta uma coluna galbada estriada. Sobre esta desenvolve-se a taça circular de maiores dimensões ornamentada com friso de dentículos da ordem jónica e uma inscrição gravada em latim, da qual se destaca a palavra COMMVNI. Sobre um plinto regular eleva-se uma coluna estriada que suporta a taça mais pequena que replica o programa decorativo da maior; desta surge um repuxo, de acrescento posterior.
Relatos contemporâneos da reconstrução do chafariz, indicam que parte dos elementos quinhentistas foram aproveitados. Da sua construção inicial, parecem pertencer as taças, pela sua traça alusiva à ordem clássica jónica e ao gosto romano que se impunha e pela inscrição que remete à utilização comunitária (COMMVNI) da fonte, preceito base da sua criação no Largo de São Domingos. Descrições do seu aspeto primitivo indicam a existência de uma coluna de suporte, 2 taças com 4 bicas cada e um tanque com formas curvilíneas. A sua autoria é atribuída ao mestre pedreiro João Lopes, o Velho, com oficina em Ponte de Lima e autor do outro exemplar de chafariz de taças do Porto, preservado no Parque das Águas, o Chafariz do Convento de São Bento de Avé Maria, também ele quinhentista.
Era abastecido com água do extinto Convento de São Domingos, construído no século XIII no mesmo largo. Em carta de D. João III, datada de 28 de fevereiro de 1545, é referida uma fonte junto do convento para utilização privativa do complexo. Na carta, o monarca menciona a substituição da fonte por um novo chafariz, o de São Domingos, construído em 1544, pela Câmara do Porto, onde foram utilizados os lucros da Imposição do Sal com os quais foram também renovados os canos vindos do Convento de São Bento de Avé Maria que passavam pela recém aberta Rua das Flores. A água para o chafariz era fornecida pelos dominicanos, que impuseram as condições de ser designado Chafariz de São Domingos e exibir as armas da Ordem.
Mais tarde, no século XVII e motivado pela construção do Manancial de Paranhos, cujo aqueduto terminava no Chafariz do Olival, de onde a água era conduzida para o Chafariz de São Domingos e daí para a Rua Nova. O contrato dessa conduta incluía alterações aos chafarizes de São Domingos e da Rua Nova (das Congostas) e, do primeiro, foram retiradas as armas dominicanas. O chafariz de São Domingos passou a ser alimentado pela água de Paranhos saindo da alçada dos dominicanos.
No século XVIII foram levadas a cabo transformações ditadas pela Junta das Obras Públicas com os Almadas como a abertura da Rua de São João, a extinção das ordens religiosas que desativaram o convento e posterior compra pelo Banco de Lisboa e a regularização da Rua das Flores motivaram a retirada do chafariz do largo em 1845.
É um chafariz de granito, exemplar único da tipologia de chafariz de taças no espaço público da cidade. A sua composição desenvolve-se em base e 2 planos principais constituídos pelo tanque de planta circular de faces lisas e pelo plinto quadrangular de faces emolduradas e ornamentadas com florões relevados que sustenta uma coluna galbada estriada. Sobre esta desenvolve-se a taça circular de maiores dimensões ornamentada com friso de dentículos da ordem jónica e uma inscrição gravada em latim, da qual se destaca a palavra COMMVNI. Sobre um plinto regular eleva-se uma coluna estriada que suporta a taça mais pequena que replica o programa decorativo da maior; desta surge um repuxo, de acrescento posterior.
Relatos contemporâneos da reconstrução do chafariz, indicam que parte dos elementos quinhentistas foram aproveitados. Da sua construção inicial, parecem pertencer as taças, pela sua traça alusiva à ordem clássica jónica e ao gosto romano que se impunha e pela inscrição que remete à utilização comunitária (COMMVNI) da fonte, preceito base da sua criação no Largo de São Domingos. Descrições do seu aspeto primitivo indicam a existência de uma coluna de suporte, 2 taças com 4 bicas cada e um tanque com formas curvilíneas. A sua autoria é atribuída ao mestre pedreiro João Lopes, o Velho, com oficina em Ponte de Lima e autor do outro exemplar de chafariz de taças do Porto, preservado no Parque das Águas, o Chafariz do Convento de São Bento de Avé Maria, também ele quinhentista.
Era abastecido com água do extinto Convento de São Domingos, construído no século XIII no mesmo largo. Em carta de D. João III, datada de 28 de fevereiro de 1545, é referida uma fonte junto do convento para utilização privativa do complexo. Na carta, o monarca menciona a substituição da fonte por um novo chafariz, o de São Domingos, construído em 1544, pela Câmara do Porto, onde foram utilizados os lucros da Imposição do Sal com os quais foram também renovados os canos vindos do Convento de São Bento de Avé Maria que passavam pela recém aberta Rua das Flores. A água para o chafariz era fornecida pelos dominicanos, que impuseram as condições de ser designado Chafariz de São Domingos e exibir as armas da Ordem.
Mais tarde, no século XVII e motivado pela construção do Manancial de Paranhos, cujo aqueduto terminava no Chafariz do Olival, de onde a água era conduzida para o Chafariz de São Domingos e daí para a Rua Nova. O contrato dessa conduta incluía alterações aos chafarizes de São Domingos e da Rua Nova (das Congostas) e, do primeiro, foram retiradas as armas dominicanas. O chafariz de São Domingos passou a ser alimentado pela água de Paranhos saindo da alçada dos dominicanos.
No século XVIII foram levadas a cabo transformações ditadas pela Junta das Obras Públicas com os Almadas como a abertura da Rua de São João, a extinção das ordens religiosas que desativaram o convento e posterior compra pelo Banco de Lisboa e a regularização da Rua das Flores motivaram a retirada do chafariz do largo em 1845.
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Chafariz do Laranjal no Largo do Laranjal, 1909.
Fruto dos mesmos projetos, foi a Praça dos Laranjais, demarcada em 1770, para onde foi transladado o chafariz em 1854. Por sua vez, vai substituir a fonte projetada para aquela praça e inaugurada em 1844. O antigo chafariz ganha, na nova praça, o nome de Chafariz do Laranjal. Permaneceu nesse local, alimentado pela água proveniente do Manancial de Camões. Foi mais tarde retirado da Praça do Laranjal como consequência do projeto de Barry Parker, depois transformado por Marques da Silva, para a Avenida dos Aliados, que previa um novo edifício camarário, iniciado em 1920, mas apenas definitivamente concluído em 1957.
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Chafariz do Laranjal no Parque das Águas, c.1940.
O chafariz foi, por isso, de novo trasladado e depositado nos jardins dos Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento da Rua Barão de Nova Sintra. Entretanto, foi instalado na Praça da Trindade um tanque simples, que em 1972 é substituído pelo Chafariz do Laranjal que é no lugar deste reconstruído.
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Chafariz no Largo da Trindade, 1983.
Chafariz do Convento de São Bento de Avé Maria, uma obra do mestre dos chafarizes
João Lopes, o Velho terá nascido nos finais do século XV em Arcos de Valdevez, pertencente a uma importante família de artistas da pedra, e que faleceu em meados do século seguinte. Foi o responsável pela obra de pedra do Convento de São Bento de Avé Maria, mandado edificar por D. Manuel I no terreno atualmente ocupado pela Estação de Comboios de São Bento. Pelo que se assume que terá sido o autor do risco do chafariz que se encontrava no claustro do convento.
Sobre a alçada do mestre, João Lopes, o Velho, funcionava uma oficina em Ponte de Lima que manteve atividade desde os anos 40 do século XVI até meados do século seguinte, com atividade em Amarante, Vila do Conde, Ponte de Lima, Arcos de Valdevez, Guimarães, Vila Pouca de Aguiar, Travanca e Porto. A afirmação regional da oficina deveu-se à introdução de motivos decorativos de importação aplicados à arquitetura. O mestre foi pioneiro na introdução do gosto “ao romano”, ou renascentistas, marcando a progressiva transição do gosto gótico. Conhecia a linguagem clássica aprendida com os biscainhos do plateresco, artistas espanhóis galegos que trabalharam nesta cronologia em Braga, Vila do Conde, Viana do Castelo e Lamego. E com Pêro Galego, seu sogro, mestre pedreiro conceituado pelo Norte de Portugal e zona da Galiza, em Espanha.
A formação do mestre em motivos “lombardos” e ornatos “grotescos” vem dos tempos do discipulato de Pero Galego, de quando integrou, a partir de 1508, a equipa dos biscainhos a trabalhar nos portais da matriz de Caminha. Foi esta experiência e aprendizagem que mais tarde criou à sua oficina uma clientela ávida pelo novo gosto, e que tenderia a vê-la como contraponto ao repertório decorativo usualmente associado ao estilo “manuelino”, o que agradaria à burguesia emergente que ditaria o estatuto da oficina.
A evolução para as formas do novo “gosto ao romano” deu-se pela adoção de novos motivos ornamentais estudados em tratadística, moldados ao gosto vernacular, em arquitetura em continuidade com as góticas. João Lopes é entendido como herdeiro e representante do sistema construtivo gótico, continuador do gosto “ao romano”, com influências do hispano-flamengo, ancorado na tradição nortenha e galega.
O Convento reflete já o pensamento “ao romano” que se ia fazendo notar entre o “manuelino”, nos capiteis, nos fustes, nas suas bases e cimácios. Num programa decorativo austero e contido, respeitando a clausura feminina. Embora a obra ter sido entregue ao mestre apenas com a condição de «(…) boa obra que bem pareça (…).», o Chafariz remete-nos já para o “novo gosto”. Destaca-se o friso decorativo de óvulos e em denticulado, a coluna de fuste canelado que suporta a primeira taça, a taça em gomos e os elementos figurativos, no caso da primeira taça, rostos ladeados por duas asas, que nos parecem putti alados; denotando um conhecimento da linguagem clássica e em particular, da ordem jónica. Os elementos figurativos que decoram a taça de menores dimensões e o remate, podem ser entendidos como carrancas, em análise comparativa com chafarizes da mesma autoria. Tais como o Chafariz da Praça da Rainha em Viana do Castelo (1554)406, o Chafariz da Praça Municipal de Caminha (1551) e o Chafariz da Plaza de la Herrería em Pontevedra (1549), excetuando o Chafariz de São Domingos no Porto (1544), que não chegou até nós, senão vestígios reutilizados no Chafariz do Laranjal.
A João Lopes, o Velho, ficou atribuído este modelo de chafariz de taças que conjuga os dois gostos e marcaram a transição para o “novo gosto” no Norte de Portugal e Galiza. Uma tradição que o seu filho, João Lopes, o Novo, perpetuou, com o risco de chafarizes já dentro do gosto “maneirista”.
Sobre a alçada do mestre, João Lopes, o Velho, funcionava uma oficina em Ponte de Lima que manteve atividade desde os anos 40 do século XVI até meados do século seguinte, com atividade em Amarante, Vila do Conde, Ponte de Lima, Arcos de Valdevez, Guimarães, Vila Pouca de Aguiar, Travanca e Porto. A afirmação regional da oficina deveu-se à introdução de motivos decorativos de importação aplicados à arquitetura. O mestre foi pioneiro na introdução do gosto “ao romano”, ou renascentistas, marcando a progressiva transição do gosto gótico. Conhecia a linguagem clássica aprendida com os biscainhos do plateresco, artistas espanhóis galegos que trabalharam nesta cronologia em Braga, Vila do Conde, Viana do Castelo e Lamego. E com Pêro Galego, seu sogro, mestre pedreiro conceituado pelo Norte de Portugal e zona da Galiza, em Espanha.
A formação do mestre em motivos “lombardos” e ornatos “grotescos” vem dos tempos do discipulato de Pero Galego, de quando integrou, a partir de 1508, a equipa dos biscainhos a trabalhar nos portais da matriz de Caminha. Foi esta experiência e aprendizagem que mais tarde criou à sua oficina uma clientela ávida pelo novo gosto, e que tenderia a vê-la como contraponto ao repertório decorativo usualmente associado ao estilo “manuelino”, o que agradaria à burguesia emergente que ditaria o estatuto da oficina.
A evolução para as formas do novo “gosto ao romano” deu-se pela adoção de novos motivos ornamentais estudados em tratadística, moldados ao gosto vernacular, em arquitetura em continuidade com as góticas. João Lopes é entendido como herdeiro e representante do sistema construtivo gótico, continuador do gosto “ao romano”, com influências do hispano-flamengo, ancorado na tradição nortenha e galega.
O Convento reflete já o pensamento “ao romano” que se ia fazendo notar entre o “manuelino”, nos capiteis, nos fustes, nas suas bases e cimácios. Num programa decorativo austero e contido, respeitando a clausura feminina. Embora a obra ter sido entregue ao mestre apenas com a condição de «(…) boa obra que bem pareça (…).», o Chafariz remete-nos já para o “novo gosto”. Destaca-se o friso decorativo de óvulos e em denticulado, a coluna de fuste canelado que suporta a primeira taça, a taça em gomos e os elementos figurativos, no caso da primeira taça, rostos ladeados por duas asas, que nos parecem putti alados; denotando um conhecimento da linguagem clássica e em particular, da ordem jónica. Os elementos figurativos que decoram a taça de menores dimensões e o remate, podem ser entendidos como carrancas, em análise comparativa com chafarizes da mesma autoria. Tais como o Chafariz da Praça da Rainha em Viana do Castelo (1554)406, o Chafariz da Praça Municipal de Caminha (1551) e o Chafariz da Plaza de la Herrería em Pontevedra (1549), excetuando o Chafariz de São Domingos no Porto (1544), que não chegou até nós, senão vestígios reutilizados no Chafariz do Laranjal.
A João Lopes, o Velho, ficou atribuído este modelo de chafariz de taças que conjuga os dois gostos e marcaram a transição para o “novo gosto” no Norte de Portugal e Galiza. Uma tradição que o seu filho, João Lopes, o Novo, perpetuou, com o risco de chafarizes já dentro do gosto “maneirista”.