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Chafariz do Laranjal, viajante no espaço e no tempo

Pensa-se que terá sido construído com as pedras do antigo Chafariz do Largo de São Domingos, construído no largo que o denomina, na continuidade da Rua das Flores, em 1544. O antigo chafariz ocupava o centro do largo e foi demolido aquando da sua substituição pela também extinta Fonte de São Domingos, de espaldar monumental, construída no rescaldo dos projetos almadinos e inaugurada em 1849.

É um chafariz de granito, exemplar único da tipologia de chafariz de taças no espaço público da cidade. A sua composição desenvolve-se em base e 2 planos principais constituídos pelo tanque de planta circular de faces lisas e pelo plinto quadrangular de faces emolduradas e ornamentadas com florões relevados que sustenta uma coluna galbada estriada. Sobre esta desenvolve-se a taça circular de maiores dimensões ornamentada com friso de dentículos da ordem jónica e uma inscrição gravada em latim, da qual se destaca a palavra COMMVNI. Sobre um plinto regular eleva-se uma coluna estriada que suporta a taça mais pequena que replica o programa decorativo da maior; desta surge um repuxo, de acrescento posterior.  

Relatos contemporâneos da reconstrução do chafariz, indicam que parte dos elementos quinhentistas foram aproveitados. Da sua construção inicial, parecem pertencer as taças, pela sua traça alusiva à ordem clássica jónica e ao gosto romano que se impunha e pela inscrição que remete à utilização comunitária (COMMVNI) da fonte, preceito base da sua criação no Largo de São Domingos. Descrições do seu aspeto primitivo indicam a existência de uma coluna de suporte, 2 taças com 4 bicas cada e um tanque com formas curvilíneas. A sua autoria é atribuída ao mestre pedreiro João Lopes, o Velho, com oficina em Ponte de Lima e autor do outro exemplar de chafariz de taças do Porto, preservado no Parque das Águas, o Chafariz do Convento de São Bento de Avé Maria, também ele quinhentista. 

Era abastecido com água do extinto Convento de São Domingos, construído no século XIII no mesmo largo. Em carta de D. João III, datada de 28 de fevereiro de 1545, é referida uma fonte junto do convento para utilização privativa do complexo. Na carta, o monarca menciona a substituição da fonte por um novo chafariz, o de São Domingos, construído em 1544, pela Câmara do Porto, onde foram utilizados os lucros da Imposição do Sal com os quais foram também renovados os canos vindos do Convento de São Bento de Avé Maria que passavam pela recém aberta Rua das Flores. A água para o chafariz era fornecida pelos dominicanos, que impuseram as condições de ser designado Chafariz de São Domingos e exibir as armas da Ordem.  

Mais tarde, no século XVII e motivado pela construção do Manancial de Paranhos, cujo aqueduto terminava no Chafariz do Olival, de onde a água era conduzida para o Chafariz de São Domingos e daí para a Rua Nova. O contrato dessa conduta incluía alterações aos chafarizes de São Domingos e da Rua Nova (das Congostas) e, do primeiro, foram retiradas as armas dominicanas. O chafariz de São Domingos passou a ser alimentado pela água de Paranhos saindo da alçada dos dominicanos. 

No século XVIII foram levadas a cabo transformações ditadas pela Junta das Obras Públicas com os Almadas como a abertura da Rua de São João, a extinção das ordens religiosas que desativaram o convento e posterior compra pelo Banco de Lisboa e a regularização da Rua das Flores motivaram a retirada do chafariz do largo em 1845. 



Chafariz do Laranjal no Largo do Laranjal, 1909. 


Fruto dos mesmos projetos, foi a Praça dos Laranjais, demarcada em 1770, para onde foi transladado o chafariz em 1854. Por sua vez, vai substituir a fonte projetada para aquela praça e inaugurada em 1844. O antigo chafariz ganha, na nova praça, o nome de Chafariz do Laranjal. Permaneceu nesse local, alimentado pela água proveniente do Manancial de Camões. Foi mais tarde retirado da Praça do Laranjal como consequência do projeto de Barry Parker, depois transformado por Marques da Silva, para a Avenida dos Aliados, que previa um novo edifício camarário, iniciado em 1920, mas apenas definitivamente concluído em 1957. 



Chafariz do Laranjal no Parque das Águas, c.1940.  


O chafariz foi, por isso, de novo trasladado e depositado nos jardins dos Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento da Rua Barão de Nova Sintra. Entretanto, foi instalado na Praça da Trindade um tanque simples, que em 1972 é substituído pelo Chafariz do Laranjal que é no lugar deste reconstruído. 



Chafariz no Largo da Trindade, 1983. 

Para saber+ sobre o mestre João Lopes clicar aqui.