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A Fonte Monumental, que nunca foi dos Leões

O sistema de abastecimento de água ao domicílio também veio trazer à cidade uma fonte de fonte d’art produzida em Paris e trazida para a antiga Praça dos Voluntários da Rainha, atual Praça de Gomes Teixeira, ou como é comummente conhecida, a Praça dos Leões. Produto de uma indústria que concilia a vertente prática com a estética, a arte e a indústria, a indústria “fonte d’art”, a Fonte Monumental reflete isso mesmo: para além de funcionar como ornamento no espaço público, pela sua composição escultórica e jogos de água, desempenhava funções técnicas. A fonte estabelecia ligação com a conduta principal que vinha desde o Reservatório de Santo Isidro, ou seja, com a conduta que abastecia a zona média (núcleo da cidade), e com a conduta que abastecia a zona baixa da cidade (zona ribeirinha) e o Reservatório de São João da Foz (atual Reservatório – Museu do Porto). Funcionando, assim, como um ponto de encontro que era essencial para a oxigenação e regulação da pressão das águas, dado a grande extensão da conduta que ligava os dois reservatórios e as duas zonas da cidade. Para além disso, um conjunto de torneiras adufas situadas no subsolo, na câmara de manobras, possibilitava o corte da passagem das águas de uma das condutas dos reservatórios em casos de emergência ou situações de manutenção e intervenção. 

Para saber+ sobre o 1º sistema industrial de abastecimento de água ao domicílio clicar aqui

A Exposição Universal de 1867, em Paris, é a primeira a efetivar a indústria da Fundição Artística, a fonte d’art, com uma exposição de artefactos em ferro fundido da Fundição Val d’Osne. Aqui houve pela primeira vez uma classe específica de “Bronzes d’art, Fontes d’arts diverses, objets en metaux repoussés.” A do ano de 1878 foi o da consagração da indústria de fonte d’art no domínio do embelezamento urbano. A maioria das peças existentes em Portugal foram fabricadas pela fundição Val d’Osne e pela fundição Durenne, as mais emblemáticas de Paris e responsáveis pelo difundir desta indústria a nível internacional através dos seus catálogos. 

No caso de Portugal, podemos entender a Exposição Universal de 1865, realizada no Porto, como a que relevou o impacto dos artefactos urbanos no urbanismo. Exemplares de fonte d’art provenientes de fundições francesas são encontrados nos jardins do Palácio de Cristal, trazidos de Paris para embelezar os jardins para a exposição, mas também a Fonte do Mercado Ferreira Borges, com alegorias à fauna e flora, atualmente instalada também nos Jardins do Palácio de Cristal e produzida pela fundição Val d’Osne, tal como a Fonte dos Leões.  



Desenho do projeto original para a Fonte Monumental, 1883. 


O projeto original para a Fonte Monumental apresentado pela Compagnie à Câmara do Porto em 1883 era de um modelo de fonte do catálogo de uma das fundições mais emblemáticas de Paris, a Fundição Durenne. O modelo é do catálogo “Durenne Fontaines” e previa um modelo de duas taças e com um programa decorativo mais minucioso. O projeto foi reprovado para Câmara e foi aprovado um novo modelo de fonte da Fundição Val d’Osne, pertencente ao catálogo mais difundido da fundição, o Nº2 dedicado às Fontes d’Art publicado em 1881, na secção “Animaux”.  

Uma das características do mobiliário urbano do século XIX é o fabrico em moldes, democratizando-o, de certa forma, pelo preço acessível e pela difusão dos artefactos e das suas formas, através dos catálogos. E por essa razão, encontramos vários artefactos com o elemento do “leão” que encontramos na Fonte dos Leões, em território nacional e internacional, produzidos pela mesma fundição francesa. A fonte da praça Jorge I em Patras, na Grécia de 1875, a de Leicester Town Hall em Leicester fabricada no ano de 1878, e os elementos escultóricos da fonte da Avenida da Liberdade em Lisboa, de 1879-1886. Não fizesse este “leão” parte do álbum de catálogo Nº2, o considerado mais conhecido e completo dedicado às fontes d’art da Val d’Osne, onde é descrito como “grifo”. Será que a Fonte Monumental nunca foi dos leões, mas sim, dos grifos? 



Fonte dos Leões, 1983. 


A influência francesa neste tema na cidade do Porto está associada não só à Exposição Universal de 1865 onde a presença francesa se fez notar com 499 expositores, mas também à publicação “Les Promenades de Paris (1867-1973)” que enfatiza o papel do mobiliário urbano de ferro fundido na paisagem oitocentista e a importância do abastecimento de água para combater a insalubridade. E a direta influência no projeto para o sistema de abastecimento ao domicílio não só de Eugéne Gavand, mas também da Companhia concessionária responsável pela construção do sistema, a Compagnie Générale des Eaux pour L'Etranger